Publicado por: . | 26/08/2012

Boina Azul – ONUMOZ 1994

Quando nos referimos a uma missão de paz das Nações Unidas, temos uma idéia simplista de intervenção militar por parte de uma força multinacional em determinado país, porém, estas missões visam manter a segurança internacional, a controlar e resolver conflitos entre Estados limítrofes ou entre comunidades de um mesmo país.

As missões de paz criam condições necessárias para estabelecer negociações pacíficas e o monitoramento da implementação dos acordos feitos entre as partes hostis.  Essas missões demandam uma variedade de funções, as quais requerem combinações de efetivos militares, policiais e pessoal civil; os componentes das missões de paz podem desempenhar funções de observadores desarmados ou como forças de manutenção, equipados com armas leves.

Eles podem desempenhar outras atribuições, entre elas: observar a situação diária de certa localidade, formular relatórios, supervisionar a retirada de tropas ou garantir o cumprimento de acordos; investigar violações do cessar fogo; patrulhar áreas de conflitos; supervisionar eleições; monitorar a preservação da Lei e da Ordem; assegurar a transição de um território para sua independência; prover assistência médica de emergência; assistir o restabelecimento de refugiados; trabalhar para restabelecer as atividades normais em áreas destruídas e principalmente fazer com que as partes conflitantes estejam certas de que todo o mundo está observando suas atitudes.

Somente em circunstâncias excepcionais, as tropas militares da ONU usam a força, em casos de ataque ou se pessoas armadas tentarem impedir o cumprimento de suas atribuições.  Os Observadores Policiais não são autorizados a portar qualquer tipo de armamento, somente em casos excepcionais é que poderá ser autorizado o seu uso.

A Polícia Militar do Estado do Rio Grande do Norte, no ano de 1994 a pedido das Nações Unidas, participou pela primeira vez em sua historia secular de uma Missão de Paz da ONU, onde enviou para Moçambique, um efetivo de 04 Oficiais (um Major e três 1º Tenentes) para atuarem como observadores policiais, onde fomos os pioneiros na nossa corporação em participar de uma força multinacional.

Em Moçambique, onde fui observador policial, juntamente com o Major PM Reis (Coronel PM RR – Comandante-Geral da PMRN de 16/AGO/2001 a 03/JAN/2003) e com os Tenentes PM Reinaldo (Capitão PM RR trabalha atualmente no Staff ONU) e Tentente PM Alarico (Tenente-Coronel PM – Subcomadante do CPM), a missão iniciou-se em fevereiro de 1994, com duas semanas de reuniões e instruções no Quartel General da ONUMOZ (United Nations Operation in Mozambique), hotel Hovuma, na cidade de Maputo capital de Moçambique, quando foram expostas nossas atribuições: os cuidados a serem tomados; as recomendações médicas; as imunizações através das vacinas; informações técnicas para operação dos equipamentos de comunicação; testes de direção e testes orais e escritos da língua inglesa, que era o idioma oficial da missão. Cada um de nós utilizávamos o uniforme da PMRN, com a bandeira do Brasil na manga esquerda e o nome Brasil e o símbolo da ONU na manga direita da canícula, e a “boina azul” das Nações Unidas, a qual adorna a mesa da sala do Comando-Geral da PMRN.

Após as duas primeiras semanas fomos destacados para postos diferentes (Team Sites) distribuídos pelo interior do país, eu fui designado para Nampula capital da província de Nampula ao norte do país (fronteira com a Tanzânia),o Capitão PM Reinaldo foi designado para servir no Quartel General da ONU, na cidade de Maputo capital de Moçambique, o Tenente-Coronel PM Alarico foi designado para servir em Tete capital da província de Tete ao noroeste do país (fronteira com a Zâmbia e o Malawi), e o Coronel PM RR Reis foi designado para Lichinga capital da província do Niassa ao norte do país (fronteira com a Zâmbia e o Malawi,), onde desempenhávamos serviços de observação junto a Polícia da Republica de Moçambique – PRM, que compreendiam visitas às unidades policiais, prisionais e patrulhas conjuntas.

Éramos encarregados também de investigações sobre denúncias de violações dos direitos humanos e do cessar fogo, além de atuarmos como intérpretes dos demais integrantes tendo em vista que o idioma local é o português, pois Moçambique foi também colônia portuguesa. Havia um efetivo de 1.144 observadores policiais e mais de 5.000 militares das Forças Armadas dos 35 países que integraram a operação, sendo considerada pelas Nações Unidas a missão mais importante desenvolvida com êxito e que empregou o maior efetivo desde sua criação*.

Os contatos profissionais firmados com os policiais estrangeiros foram excelentes, porém, devido às grandes diferenças culturais, religiosas, de idioma  e pessoais existentes, todos tivemos que se adaptar a um modo de vida no qual pudéssemos conciliar cada ponto de vista e respeitar as particularidades de cada um, as quais estavam presentes em todos os momentos de nossa convivência. O intercâmbio de informações sem sombra de dúvidas serviu para engrandecer os conhecimentos sobre nossa profissão.

Nós juntamente com os outros policiais militares brasileiros, fomos muito bem aceitos pela população moçambicana devido às afinidades lingüísticas e culturais.  No que diz respeito à estrutura da missão, nossa atuação foi fundamental para o bom desempenho das funções, tendo em vista que a maior parte dos contingentes integrantes da ONUMOZ, não dominavam o idioma local.  Além do fato dos policiais brasileiros serem reconhecidos por todos os componentes da missão por sua iniciativa, profissionalismo e companheirismo, destacando positivamente nossa polícia e nosso país, pois éramos conhecidos como “Amigo Brasileiro”, e exatamente no dia 07 de setembro de 1994, aniversário de nossa independência fomos agraciados em solo moçambicano, aos acordes do Hino Nacional Brasileiro com a “Medalha do Mérito da Nações Unidas”, um dos grandes momentos de nossas vidas, que ficará guardado em nossas memórias para sempre e será o legado para nossos progênitos.

As missões de paz tem duração de 1 ano e, neste período se faz muito importante a assistência, por parte da Corporação, aos familiares dos componentes da missão assim como se faz necessária a remessa regular de informações sobre nosso Estado e país, já que lá ficamos praticamente alheios às notícias do mundo.

Somente ao concluirmos uma missão de paz e retornarmos ao nosso solo pátrio, aprendemos qual é o valor de estarmos vivendo numa nação democrática que apesar de suas deficiências e dificuldades, não sofre as consequências de uma guerra a qual condena todos à completa miséria em todas as áreas sociais.  Testamo-nos a toda prova, superamos nossos medos, nossa solidão, sobressaem-se nossos valores; em especial, a verdade, a amizade, a humildade e o sentimento de justiça.  Reconhecemos claramente nossos egoísmos, nossas fraquezas;  nossas fronteiras.  Afinal aprendemos a ser mais humanos.

Caso fosse perguntado se aceitaria participar de uma nova missão, a resposta certamente, sem sombra de dúvida, seria SIM.  Entretanto, seria importante para a corporação que essa oportunidade fosse estendida ao maior número possível de integrantes, para que as experiências pudessem ser e servissem como exemplos de vida que, sem dúvidas, para cada vez mais nos comprometer com a causa de preservação da ordem pública, mas, não tão fácil assim, pois é necessário que o candidato a uma missão de paz se prepare para enfrentá-la, pois as Nações Unidas necessita de mão de obra puramente qualificada, não basta somente ser voluntário ou dizer que quer ir, é necessário insuflar espírito, vocação de serviço solidário, identificação, entusiasmo, força de vontade, abnegação e autenticidade profunda com a missão e como disse o poeta: Se preciso fosse começaria tudo outra vez….

* De janeiro de 1993 a dezembro de 1994, o Brasil contribuiu para a missão com um total de 26 observadores militares, 67 observadores policiais (quatro foram da PMRN), uma unidade médica e uma companhia de infantaria, composta de 170 militares.


Responses

  1. Sr.comandante, parabéns pelo artigo, atraiu minha atenção de imediato devido ao tema, poís na faculdade onde estou cursando História, teremos em breve uma palestra com o comandante de uma missão de paz da ONU. Sendo assim, ficarei orgulhoso de no momento apropriado, citar que nossa instituição contribui em missões de tao elevada responsabilidade, trabalhando sempre com profissionalismo, visando o bem da sociedade, independente da Nação.
    Ass: Cb Barbosa.

    • Prezado Cb Barbosa, agradeço suas palavras.

  2. Sr. Comandante, parabéns pelo relato e ou testemunho da sua vivência como observadores policiais em missão de Paz da ONU.
    E a inteligencia de saber aproveitar as oportunidades que são confiadas a tí, pelo nosso Sr. “DEUS”.
    És, realmente uma pessoa abençoada(Amém). que “DEUS” em nosso Sr. “JESUS CRISTO”, conceda-lhes muitas bençãos.

    Saúde e Paz.

    • Prezado Jaércio, agradeço suas palavras, espero que os PMs tenham oportunidade de servir numa Missão de Paz e trazer experiências a nossa PM.


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